Sexta, 16 Outubro 2020 20:28

Baixo esclarecimento político da população é criticado em debate no IAB

“Uma pesquisa recente apontou que o Brasil é o país da América Latina que possui a população com maior nível de desconhecimento a respeito da existência de importantes instituições multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial, o que demonstra a vulnerabilidade da nossa cidadania no campo do esclarecimento político.” A afirmação foi feita pelo doutor em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Fernando Almeida, nesta sexta-feira (16/10), no canal TVIAB no YouTube. Ele participou, a convite do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), do webinar sobre ‘A integração regional e os novos rumos da política externa do Brasil: crises e paradoxos’.
Para Fernando Almeida, a falta de consciência política da população contribui para o crescimento dos movimentos de direita no País. A presidente nacional do IAB, Rita Cortez, que abriu e encerrou o evento, disse: “Vivemos um momento de grandes retrocessos no País relacionados a conquistas que, para virem a ser recuperadas, exigirão um grande esforço político”. Também fizeram palestras a doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Beatriz Bissio e a presidente da Comissão de Direito da Integração do IAB, Elian Araújo. Os debates foram mediados por Sérgio Sant’Anna, membro da comissão.

Fernando Almeida comentou a trajetória histórica da busca pela integração entre os países da América do Sul. “Houve várias tentativas pontuais de integração entre alguns países, mas, somente com as democracias instauradas após os governos militares das décadas de 1960 e 1970, foram dados os primeiros grandes passos em direção à integração regional”, disse. Beatriz Bissio criticou as ações dos EUA que dificultaram o crescimento e a integração entre países latino-americanos. “Sempre houve uma sistemática influência dos EUA nos destinos dos países da América Latina, inclusive com apoio a ditaduras”, criticou.

Miséria e desemprego – Beatriz Bissio disse que, hoje, os empecilhos para a integração são colocados por governos de direita. “Os governos militares foram substituídos por democracias que iniciaram, sob a liderança do Brasil, na maior parte das vezes, os processos políticos destinados à integração econômica, que resultaram na criação do Mercosul e do Unasul, aos quais se opõem os atuais governos de direita”, afirmou, acrescentando: “Sem integração, jamais teremos países soberanos”. Ela também fez um prognóstico da situação dos países após a pandemia: “A América Latina vai sair muito fragilizada de tudo isso, com milhões de pessoas lançadas na miséria e no desemprego”.

Elian Araújo apontou outras razões para a dificuldade de aproximação política e econômica entre os países latino-americanos. “Os entraves aos projetos de integração na região são decorrentes, principalmente, da falta de lideranças” opinou a doutora em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Ela citou também o “desmantelamento da estrutura de governança no continente, nos últimos anos” e defendeu que “o desafio atual é buscar a retomada de projetos integracionistas”.

Sérgio Sant’Anna, que é professor da Universidade Candido Mendes (Ucam) e doutor em Ciência Política pela UFF, afirmou que “a integração regional é um fenômeno político, econômico e social almejado por vários governos brasileiros, mas que não tem apoio nenhum do atual”.