O legado feminista e a coragem de defender as garantias fundamentais em meio a um sistema de Justiça punitivista são características da trajetória da desembargadora federal Simone Schreiber, homenageada em um livro lançado no Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) nesta segunda-feira (30/3). A obra coletiva Justiça, memória e coragem: tributo a Simone Schreiber reúne cerca de 30 artigos com autoria majoritariamente feminina. O objetivo é reconhecer o trabalho da magistrada, considerada exemplo de coragem, ética e compromisso com a dignidade humana.
“É impossível descrever o que eu senti quando recebi a notícia da organização desse livro. Me emociona ainda mais o fato de ser um livro basicamente escrito por mulheres, já que faz pouco que realizei a dimensão da importância da luta feminista. Afinal, a realidade de o Brasil ser um País tão desigual e violento decorre muito do fato de os homens brancos terem predominância nos espaços de poder”, afirmou Simone Schreiber. O discurso da desembargadora foi marcado pela gratidão e pela reafirmação do seu compromisso com a busca pela igualdade no Direito e na sociedade.

Rita Cortez
A abertura do lançamento foi feita pela presidente nacional do IAB, Rita Cortez, que apontou a qualidade de autoria do livro: “São mulheres fantásticas, que proporcionam uma imersão no universo do Direito Penal em uma ótica mais humana”. Ela exaltou também a homenageada pela obra. “Eu costumo dizer que resistir e transformar são atos inseparáveis. Todos os artigos estão voltados para a humanização do Direito, tendo como referencial a Simone, uma amiga cheia de coragem e um diferencial jurídico”, completou.
Diretora Cultural e de Atividades Artísticas do IAB, Marcia Dinis ressaltou que a publicação não é apenas uma homenagem afetiva: “O livro toma a Simone como uma referência intelectual e ética”. A advogada é a organizadora da obra e falou sobre a diversidade temática dos artigos, que incluem temas como racismo estrutural, proteção de dados no sistema de justiça e controle internacional de direitos humanos. “São 30 autores que escrevem com uma competência e ineditismo que impressionam”, afirmou.

Da esq. para a dir., Lucia Helena Oliveira, Mariana Schreiber Ribeiro, Simone Schreiber, Marcia Dinis, Thiago Bottino do Amaral, Ana Luiza de Sá e Daniele da Silva de Magalhães
Autor do prefácio e amigo da desembargadora, Thiago Bottino do Amaral falou da importância de se homenagearem os profissionais que cercam e fazem a diferença no cotidiano dos colegas. “Simone é uma pessoa que deve ser comemorada sempre, mas um registro físico disso é uma forma de eternizar essa admiração merecida e fazer com que ela circule. Pessoas que não a conhecem também terão a oportunidade de saber mais sobre essa magistrada, professora e acadêmica tão inspiradora”, disse ele.
Temáticas – Coautores que colaboraram com a obra também comentaram o conteúdo dos artigos e a importância do trabalho da homenageada. Daniele da Silva de Magalhães, que é defensora pública, escreveu sobre a criminologia de um ponto de vista racial: “Falei da possibilidade de recurso da acusação em caso de clemência e do esvaziamento das garantias constitucionais. Estamos vivendo uma sanha punitivista que vulnerabiliza, principalmente, corpos negros. Precisamos pensar em um pacto civilizatório com mais equidade”.
Mariana Schreiber Ribeiro, jornalista e filha da desembargadora, também participou da obra. Em um texto afetivo, ela contou da influência da mãe em sua trajetória profissional. “Comecei minha carreira cobrindo economia e, só mais tarde, passei a trabalhar com política e Judiciário. Foi bem na época da Operação Lava Jato e nós, jornalistas, tínhamos dificuldade, naquele início, de colocar uma visão mais crítica do assunto. Graças à minha mãe eu sai com uma vantagem e consegui ter um olhar mais garantista, o que fez muito sentido mais tarde”, contou.

Pedro Schreiber
O irmão, Pedro Schreiber, também fez um texto afetivo e escreveu sobre como a influência da mãe o tornou alguém mais humano. “Cresci ouvindo ela dizer que um bom juiz tem que aprender a gostar de pessoas. Isso marcou minha vida”, relatou. O olhar humano da desembargadora foi lembrado também pela diretora estratégica do grupo Elas Existem, Caroline Bispo. A organização atua pela garantia de direitos de mulheres afetadas pelo sistema de Justiça criminal no Brasil e fora dele. “Nosso grupo a ama e, dentro dele, ela desmistificou a inacessibilidade do magistrado para muitas pessoas”, relatou.
“Desde o início da minha vida profissional, Simone sempre foi uma referência de mulher”, afirmou Ana Luiza de Sá. A coautora destacou o papel da desembargadora na sua própria trajetória, colocando em vista a possibilidade de voz das mulheres em temas relacionados ao Direito Penal Econômico. Além do impacto na carreira, Paula Torres sublinhou que Simone é um exemplo feminino que mostra às colegas como é possível trabalhar, exercer sua individualidade e ser mãe: “Tive a honra de contribuir com essa obra porque, para mim, é um alento ver uma mulher encabeçar julgamentos tão importantes”.

Bruna Martins
A presidente da Comissão de História, Sociologia e Antropologia do Direito do IAB, Bruna Martins, relatou sua experiência como aluna da homenageada. “Minha vida profissional começou com a ajuda dela e hoje sou pós-doutora graças ao seu incentivo. Por isso, no livro eu falo sobre a juíza humana e corajosa que Simone é”, afirmou a advogada. O orgulho de falar de Simone foi ressaltado no texto da integrante da Comissão de Criminologia do IAB Lucia Helena Oliveira: “Temos que parabenizá-la por sua trajetória, que inspira mulheres e também homens com um trabalho de excelência”.

Letícia Lins e Silva
O grupo de criminalistas que celebram a magistratura de Simone Schreiber também é composto por Flávia Rahal. “Me sinto honrada em ter sido convidada para participar dessa obra. O conhecimento dela é de fato muito grande, mas todos que a conhecem se surpreendem com a gentileza e personalidade afável”, comentou a advogada. Já a criminalista Letícia Lins e Silva escreveu sobre um julgado referente à questão do interrogatório do réu antes da oitiva das testemunhas: “Simone brilhou nessa decisão, marcada como paradigma graças à sua intelectualidade professoral”.