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2025/2028

Filósofa lembra que ausência de reflexão crítica naturaliza estruturas de violência na sociedade

Da esq. para a dir., no alto, Nara Ayres Britto, Leila Bittencourt e Rita Cortez; embaixo, Francisco Amaral e Adriele Ayres Britto

A contribuição feminina para o pensamento filosófico foi tema de debate no Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), onde a conselheira da OAB/DF Nara Ayres Britto falou sobre a importância dos estudos da filósofa alemã Hannah Arendt. Na palestra, realizada nesta sexta-feira (13/3), a advogada destacou que Arendt foi vocal ao apontar a importância do pensamento crítico para a interrupção de ciclos de violência social e política. “Ela mostrou que, quando os indivíduos deixam de refletir criticamente sobre suas ações e passam a reproduzir normas, discursos e práticas dos sistemas em que estão inseridos, o mal pode se tornar rotineiro e banalizado”, disse Nara.

Arendt, que viveu entre 1906 e 1975, foi uma das mulheres citadas no evento. Judia, ela fugiu do regime nazista e se tornou uma das pensadoras mais influentes do século XX, tendo escrito sobre o totalitarismo, a condição humana e a importância da ação dos indivíduos na vida pública. “Hannah Arendt destacou que, com o tempo, determinadas práticas se incorporam de tal forma ao cotidiano social que deixam de ser percebidas como violência e passam a ser vistas como o ‘modo como as coisas são’”, explicou Nara.

A abertura do evento foi feita pela presidente nacional do IAB, Rita Cortez, que lembrou já ter sugerido um debate para homenagear as mulheres filósofas há alguns anos. Ela acrescentou que o próximo passo é incluir um recorte racial na discussão: “Podemos fazer uma pesquisa sobre as filósofas negras e organizar um painel com esse tema. Além de informar, é um exercício de inclusão que conversa com a forma de trabalho do Instituto”.

Presidente da Comissão de Filosofia do Direito do IAB, Francisco Amaral falou da importância de se estudar esse campo jurídico em diferentes abordagens, já que grandes pensadores foram membros da entidade. “A representação da classe é feita pela OAB, então o Instituto é um local de reflexão, com uma tradição intelectual impressionante. Nossa função é pensar o exercício da advocacia e o Direito brasileiro como instrumento de realização da Justiça”, disse ele.

Leila Bittencourt, que é membro do Conselho Superior do IAB, ressaltou em sua fala a importância de se dar destaque a nomes outrora apagados pela história ou que tiveram seu potencial reduzido a questões de gênero. “A primazia e a notoriedade são sempre dos homens. Mulheres são conhecidas como feministas e não como filósofas, é o caso de Angela Davis e Simone de Beauvoir”, afirmou.

A advogada também citou a filósofa alemã Ruth Hagengruber, reconhecida pelo trabalho acadêmico na promoção do pensamento filosófico feminino. “Em uma passagem pelo Brasil, ela nos alertou: é preciso buscar conhecer as mulheres filósofas em sua história. Não é fato que elas não existiram, apenas não são conhecidas”, pontuou Bittencourt.

A membro da Comissão dos Direitos da Mulher do IAB Adriele Ayres Britto escolheu palestrar sobre uma filósofa contemporânea, a britânica Miranda Fricker. Ela é amplamente reconhecida por seu trabalho nas áreas de epistemologia social, ética e filosofia feminista e atualmente atua como professora da Universidade de Nova York (NYU). “Miranda mudou a forma como pensamos e falamos em exclusão das mulheres nos lugares de tomada de decisão. Ela defende que, quando vozes são sistematicamente ignoradas e silenciadas, não é só quem fala que perde, todo o sistema perde”, sublinhou Adriele.

A advogada usou o gancho para tratar do retrato do Judiciário brasileiro: “Nos tribunais superiores, desde suas origens, em um recorte de mais de 130 anos, nós tivemos apenas 36 mulheres ocupando lugares de tomada de decisão”. Adriele também citou o caso do Supremo Tribunal Federal (STF), que em toda a sua história só teve como ministras mulheres Ellen Gracie, Rosa Weber e Cármen Lúcia. “Enquanto as vozes femininas estiverem ausentes, o Direito que fazemos será sempre menor do que a realidade que ele precisa alcançar”, completou.

 

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