O casal Arno e Maria José Wehling, que trabalhou junto pela consolidação da historiografia do Direito, recebeu do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) a Medalha Montezuma. A homenagem aconteceu durante o I Colóquio História, Direito e Instituições, realizado pela entidade nesta quinta-feira (25/6). A comenda é destinada a personalidades que apresentam trabalhos e títulos de alto nível cultural e jurídico.

Arno e Maria José Wehling
Arno Wehling é um renomado historiador, professor, advogado e acadêmico brasileiro, amplamente reconhecido por suas contribuições à história do direito e das instituições no Brasil. Ele é membro imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ocupa a cadeira 37 desde 2017, tendo sucedido o poeta Ferreira Gullar. Companheira de toda a vida, sua esposa Maria José também atua como historiadora e jurista, com mestrado e doutorado em Filosofia pela Universidade Gama Filho (UGF).
Presidente nacional do IAB, Rita Cortez exaltou os homenageados e afirmou que “não tem áreas do conhecimento humano mais importantes ao Direito como a história, a sociologia e a antropologia”. Por esse motivo, a advogada criou em sua terceira gestão à frente do Instituto a Comissão de História, Sociologia e Antropologia do Direito.
Responsável pelo grupo, Bruna Martins destacou que a comissão pretende promover o reconhecimento de estudos de juristas dedicados a essas questões. Ela definiu Arno como um exemplo de inigualável interlocutor e inesquecível professor: “Aqui, não celebramos apenas uma trajetória individual de extraordinária relevância do professor. Reafirmamos sobretudo os valores que desejamos preservar e transmitir, como o rigor intelectual e a convicção de que o conhecimento é indispensável para a sociedade que queremos ter”.
O diploma de Arno foi entregue pelas mãos do senador constituinte e membro benemérito do IAB Bernardo Cabral, enquanto a homenagem a Maria José foi dada por Bruna Martins. Ao agradecer em nome do casal, Arno ressaltou a importância do momento em sua carreira. “Para um historiador, receber uma medalha com o nome de Montezuma, que é figura de grande importância para a trajetória nacional, é motivo de orgulho”, disse ele.

Ricardo Marcelo Fonseca
O evento também contou com a participação do vice-presidente e do secretário da Comissão de História, Sociologia e Antropologia do Direito, Renan Aguiar e Marcos Pascotto Palermo, respectivamente; do pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa Christian Lynch; dos professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ricardo Marcelo Fonseca, e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Jurandir Malerba e Alfredo Flores; do tesoureiro da OAB/RJ, Fábio Nogueira, e dos presidentes do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), Victorino Chermont de Miranda, e da Academia Carioca de Letras (ACL), Adriano Espínola.

Jurandir Malerba
Palestras – O colóquio reuniu acadêmicos dedicados à historiografia para falar das contribuições dadas por Arno Wehling. Ricardo Marcelo Fonseca definiu o professor como um farol e uma inspiração e destacou especialmente o livro Do Antigo Regime ao Constitucionalismo: A Casa da Suplicação do Brasil (1808-1829/1833), que examina a transição jurídica do Brasil a partir da chegada da Família Real até a consolidação da independência. “Cravaria sem nenhum receio como a obra de historiografia jurídica mais importante publicada no Brasil nas últimas décadas”, afirmou.

Alfredo Flores
Jurandir Malerba elogiou a postura sensata de Arno: “Ele se move contra o realismo ingênuo e contra o relativismo estéril para nos lembrar que o conhecimento, mesmo historicamente datado, preserva sua dignidade”. Enquanto Alfredo Flores exaltou a generosidade empregada pelo homenageado aos colegas: “Arno é uma referência de caráter e conduta ilibada, e sempre esteve disponível para dialogar com aqueles que queriam abrir espaço para essa área de estudo nas universidades”, contou.

Christian Lynch
O trabalho do professor, para Christian Lynch, é uma das contribuições mais consistentes à tradição jurídica brasileira. “Arno pertence a uma geração que recebeu a historiografia brasileira em transição. De um lado ainda pesava a velha história política, factual e administrativa, e de outro cresciam as correntes que dissolviam o Estado. A originalidade dele consistiu em recusar essas duas alternativas, o que fez ao reconstruí-las por dentro, atribuindo-lhes historicidade, restituindo-lhes o tempo, a cultura jurídica, os agentes, as linguagens e os sistemas de legitimação que lhes deram sentido”, declarou.