As marcas deixadas pela ditadura militar na memória nacional são a tônica de duas obras literárias lançadas no Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) nesta quinta-feira (16/4): E manchado de sangue terás que crescer: uma vida de luta, do neto do ex-presidente João Goulart, Christopher Goulart, e Anistia política: transição inacabada à luz da teoria geral do Estado contemporâneo, do mestre em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo (USP) Bruno Luis Talpai. “São obras diferentes em suas formas, mas que dialogam muito entre si. Temos um texto teórico e uma experiência pessoal reveladora”, comentou a diretora Cultural e Atividades Artísticas do IAB, Marcia Dinis.

Christopher Goulart
Na autobiografia de Christopher Goulart, o advogado mergulha em suas memórias pessoais, que estão profundamente ligadas à história política do Brasil. Nascido no exílio em Londres (1976), Christopher foi o único neto que Jango, deposto da presidência pelo golpe militar de 1964, chegou a conhecer pessoalmente. A obra explora como o golpe militar e o exílio moldaram sua vida e a de várias gerações de sua família. “É a história de um sobrenome que marcou a política do Brasil. Leitores disseram que é um livro pesado, mas bonito. E isso se dá justamente porque não me coloco no lugar de vítima – o que não quer dizer perdão jurídico aos algozes. Mas, trato de gratidão e do entendimento de que os obstáculos que não nos derrubaram nos fortaleceram”, contou o autor.

Bruno Luis Talpai
Já Bruno Luis Talpai analisa a anistia no Brasil como um elemento central, porém complexo, da transição democrática. O livro publicado pelo acadêmico propõe uma abordagem multidisciplinar, com foco na Teoria Geral do Estado e na Ciência Política. “Por que ainda falamos desse tema? Quando olhamos para o presente, vemos que o monitoramento ilegal de pessoas, por exemplo, não está tão distante”, disse Talpai, lembrando do escândalo da Agência Brasileira de Inteligência, conhecido como Abin paralela. “Isso tem relação com nosso processo político de transição, que adotou o regime de perdão, não de responsabilização. O livro demonstra o esforço de uma transição inacabada”, enfatizou.
A abertura do evento foi feita pela presidente nacional do IAB, Rita Cortez, que ressaltou a relação dialética entre o estudo da história e o conhecimento sobre o Direito. “Quando promovemos encontros como este, estamos trazendo à tona memória e verdade. É um momento importante da nossa história e temos que manter o tema em pauta. Não superamos a ruptura da democracia como gostaríamos”, comentou a advogada.
Quem também saudou os autores e os convidados foi o ex-presidente do IAB Técio Lins e Silva. Atual procurador-geral de Niterói (RJ), o jurista tem uma trajetória ligada diretamente à defesa da democracia, tendo atuado como advogado de presos políticos durante a ditadura. “É uma felicidade ver o Instituto sediando eventos como este. Eles são importantes para a história do País, que ainda não está inteiramente contada. Nós vivemos os ecos do golpe”, afirmou ele.
Também participaram dos lançamentos o diretor-adjunto de memória do IAB, Aderson Bussinger, que atuou como debatedor, e um dos filhos de João Goulart, João Vicente Goulart. “A despeito da importância de todos os livros lançados pelo nosso Instituto, essas duas obras têm uma singularidade e uma importância especial para o momento político que estamos vivendo. Primeiro, ao falar de anistia, analisamos a nossa justiça de transição – e ainda vivemos uma fase transicional, como bem vimos no 8 de janeiro. Já a história da família Goulart sistematiza toda essa discussão em depoimento vivo”, disse Bussinger.
João Vicente Goulart destacou que os 21 anos de ditadura, que foram seguidos por uma estabilização política, trazem de volta ruídos de um processo de retardamento da democracia. “Não cuidamos bem da redemocratização e não fortalecemos as instituições. O livro do Chris, além de contar a história da nossa família, retrata a necessidade de ser fortaleza e continuar na luta por um Brasil mais justo, livre, soberano e que precisa ser capaz de enfrentar uma direita cada vez mais fascista”, disse o filho do ex-presidente.