Assim como a corrupção desnacionaliza, designar uma organização criminosa como terrorista também causa desnacionalização e permite que instrumentos elaborados para uma finalidade específica possam ser utilizados para outras. O pensamento é do pesquisador na área de Inteligência e Segurança Bruno do Val, que participou nesta sexta-feira (21/8) do webinar sobre A nova doutrina de segurança dos EUA para a América Latina, realizado pelo Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB).
Mestre em Economia Política Internacional pela UFRJ, Bruno do Val pontuou que colocar o crime organizado e o narcoterrorismo como um elemento textual da Estratégia de Segurança Nacional, como fez o governo norte-americano, é uma novidade. E colocar em texto também que o seu objetivo é recrutar lideranças que possam levar adiante o seu objetivo de segurança dentro daquela região é também uma novidade. “Isso tudo, até então, era feito fora dos holofotes e dos documentos”, ressaltou.

Amaury Marques
Também participaram do webinar o diretor coordenador das Comissões do IAB, Amaury Marques, o presidente e o vice-presidente da Comissão de Lawfare Luciano Bandeira Tolla e André Luiz de Carvalho Matheus, respectivamente, e o historiador e professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ Luís Eduardo Fernandes. Representando a presidente nacional do IAB, Rita Cortez, Amaury Marques abriu o evento agradecendo a participação de todos.

Luciano Bandeira Tolla
Luciano Tolla afirmou que o tema proposto para o webinar é bastante tenso, original, e vem se agravando ao longo do tempo: “Debater a tentativa de intervenção de um Estado soberano sob a justificativa, seja ela justa ou não, da classificação de grupos criminosos como terroristas é muito importante, não só para o Instituto, mas para o Brasil”.

André Matheus
André Matheus ressaltou a virada geopolítica que está ocorrendo no mundo todo, com vários conflitos acontecendo. “E a América Latina não está de fora disso”, lembrou. Ele também citou como alguns países, principalmente os Estados Unidos, têm se comportado com uma política mais agressiva.

Luís Eduardo Fernandes
Para Luís Eduardo Fernandes, “o tema não é só do universo jurídico, mas um tema da sociedade brasileira, das sociedades latino-americanas contemporâneas e, cada vez mais, infelizmente, relevante para as nossas dinâmicas políticas, sociais e econômicas”. Ele fez uma análise prática da doutrina de segurança dos EUA e seus impactos para a sociedade brasileira e para a América Latina como um todo.
“Entendo o imperialismo hoje não apenas como a intervenção militar de um país sobre o outro, mas algo estrutural na relação entre os países e que estrutura o próprio mercado mundial capitalista”, disse o professor. Para ele, “não há uma tentativa de ruptura completa com a ordem internacional, mas uma tentativa de reconfiguração dessa mesma ordem por meio da força, uma tentativa de reconfiguração com forte inspiração neocolonial, tendo como um grande laboratório a Palestina e a própria América Latina”.