Saudação ao Presidente José Da Fonseca Martins Junior

O ano: 1999. 
Num tempo em que a fala dos advogados era imprescindível nas solenidades de posse na 1a Região e na condição de presidente da mais antiga entidade de representação da advocacia trabalhista, a ACAT, coube-me fazer, em nome da advocacia, o discurso de saudação da sua nomeação como magistrado neste TRT, na vaga assegurada ao Ministério Público do Trabalho pelo quinto constitucional.

2019: 
No exercício do cargo de presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros - IAB Nacional, o Desembargador Fonseca Martins, sócio honorário de nossa bicentenária instituição, é eleito e empossado na presidência do TRT 1. 

Não poderia deixar de registrar nesta saudação a minha enorme satisfação pela sua posse, ainda que lamentavelmente ausente. 

Coincidências da vida ou caminhos que se cruzam, seja o que for, são momentos com enorme significado nas nossas trajetórias. 
Impossível não revisitar o passado e fazer uma breve retrospectiva, até porque a nossa convivência, presidente Martins, é muita antiga. 

É uma história que remonta aos tempos das lutas estudantis universitárias; da reabertura do CALC -LIVRE, Centro Acadêmico Luiz Carpenter da Faculdade de Direito da UERJ. 

Teimávamos enfrentar as proibições do Decreto Lei 477, rigorosamente aplicadas pelo então diretor da faculdade de Direito, o Prof. Oscar Dias Corrêa, autor da célebre frase: “Aos estudantes compete, única e exclusivamente, estudar”. 

Sem nos distanciar dos estudos do direito, nós nos insurgíamos contra as Reformas Universitárias de base, para erigir uma Universidade Autônoma e Democrática. As nossas bandeiras estudantis eram a convocação da Assembléia Nacional Constituinte e o restabelecimento imediato do Estado Democrático e de Direito. Eram manifestações consideradas altamente subversivas, como lembraria, em recente conversa, o nosso professor Humberto Manes.

Nesta retrospectiva lembro-me, ainda, que a sua turma na faculdade, os formandos de 1979, simplesmente resolveram eleger como patrono Gregório Bezerra. O motivo para a indicação, segundo os bacharelandos, residia no fato de Gregório ser um advogado do povo, um ferrenho defensor da redemocratização do país e das causas da população mais empobrecida. 

Não foi eleito, mas a turma de 79 ficou eternamente conhecida como “Gregório Bezerra”. Um símbolo da nossa geração de estudantes da faculdade de direito da UERJ e dos articuladores da reabertura do CALC-LIVRE. 

A nossa geração, embora marcada por perseguições políticas, era acalentada pelo sonho da retomada das liberdades democráticas alcançadas anos depois com a Anistia Ampla Geral e Irrestrita; pela instalação do Congresso Constituinte; e pelas eleições diretas para Presidente da República.

Voltando a 1999, iniciei a minha saudação na sua posse citando Machado de Assis: “a justiça sendo cega, não vê se é vista e, então, não cora”. 
Ousei aconselhar os empossados, você e a desembargadora Maria das Graças Paranhos, citando um texto extraído do Código Geral da Suécia de 1734: “Mais vale um juiz bom e prudente do que uma boa lei. Com um juiz mau e injusto, uma lei boa de nada serve, porque ele a verga e a torna injusta a seu modo”.

Machado de Assis e a sensata advertência da legislação sueca, mencionadas numa matéria doutrinária sobre a efetividade do processo do trabalho, foram a tábua de salvação para deslocar o enfoque do meu discurso exclusivamente nas lembranças estudantis e nos laços profissionais da nossa atuação na advocacia sindical.

O "Junior", como carinhosamente o chama a colega Soninha Martins, na advocacia, tinha a mesma tenacidade de seu pai, o querido e sempre admirado Fonseca Martins, a quem não poderia deixar de fazer uma pequena, mas sincera referência, por ser ele um exemplo vivo da advocacia trabalhista, incansavelmente militante além de ser um dos fundadores da ACAT. 

Destaquei naquela saudação, a necessidade de se realizar justiça e assegurar os direitos sociais conquistados com muita luta, incluindo a nossa como estudantes e advogados, num país que no marco internacional recebia e continua recebendo a inglória colocação como um dos países com enormes desigualdades e injustiça sociais. 

Ressaltei a luta da comunidade trabalhista pela autonomia e fortalecimento da Justiça do Trabalho e pelo fiel cumprimento do seu papel constitucional, frisando que a sociedade reclamava dos magistrados o reconhecimento da importância do exercício da cidadania, do respeito aos direitos civis, políticos e sociais, até porque os brasileiros, apesar de descrentes do projeto brasileiro traçado na ocasião, continuavam a atribuir ao Judiciário, dentre todos os poderes, alguma credibilidade.

O ditado que “mais vale um acordo ruim do que uma boa demanda”, selava a disfunção jurídica do Estado e a omissão inconcebível da Justiça diante do cidadão. A advocacia ansiava pela democratização do poder judiciário de forma a torná-lo cada vez mais acessível ao povo brasileiro. 

Deparo-me, hoje, em janeiro de 2019, preparando esta afetuosa saudação, sentindo a necessidade de não só enaltecer o conceituado currículo jurídico do desembargador empossado, mas para pedir ao Presidente do Tribunal mais antigo do Brasil que não só promova uma profícua gestão, mas que participe, neste delicado momento, do movimento de união em defesa dos direitos sociais fundamentais trabalhistas, do mais pleno acesso à Justiça do Trabalho, da ordem constitucional que dignifica o ser humano e valoriza o trabalho como pilar essencial da nossa república.

As lembranças, o discurso de 1999, e a saudação que ora faço, vinte anos depois, comovida e orgulhosa de tê-lo como presidente do nosso Tribunal, afinal de contas, se combinam, pois da pessoa do juiz não podemos retirar o cidadão, o ser humano, e o papel social que com equilíbrio e firmeza deva ele cumprir.

Presidente: Não somos mais aqueles agitadores universitários. 

No necessário diálogo com a sociedade e na irrefutável conjugação de esforços entre a magistratura e a advocacia trabalhista nesta difícil quadra da política do país para atingirmos objetivos comuns e consagrar o que conquistamos, é preciso fazer pulsar nas nossas ponderadas e equilibradas atitudes o nosso coração de estudante.

Se muito vale o que foi feito, mais vale o que será! Esta é a singela mensagem da advogada, da amiga, da companheira de movimento estudantil que tem a honra de estar a frente de uma instituição que em 175 anos de existência tem dado enormes contribuições à formação do ordenamento jurídico brasileiro, sempre na "vanguarda do direito". 

Nesta trilha de afirmações democráticas, conte comigo, e com o apoio da "casa de Montezuma" ao longo da sua administração.
 

Rita Cortez
Presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros